
Os dias são repetitivos e eu geralmente estou acompanhada de minha imaginação. Essa é uma região de poucas residências, um pólo comercial. Aqui misturam-se vários tipos de trabalhadores, em passos estranhamente sincronizados formando uma massa de carneirinhos: Camisa social branca, calça preta.
Atravesso a rua mecanicamente, observo tudo a minha volta estando ao mesmo tempo alheia. Nada me prende atenção de verdade, porque nada me surpreende. Sol de meio dia e eu com esse casaco grosso, resultado de uma escolha infeliz feita às seis da manhã...Não adianta assistir a previsão do tempo, aqui é um mundo à parte. Mas tudo bem, esta é minha hora de almoço, reservada em parte para sonhar.
Novamente com a bandeja na mão, escolhendo o que colocar no prato. Cercada de rostos estranhos e familiares, mas hoje com um pequeno diferencial:
ELE.
Está acompanhado de amigos, colegas de trabalho eu presumo. Deve ser um pouco mais velho que eu, um pouco mesmo. Ele sempre tem um leve sorriso bonitinho e secreto no rosto, sabe quando não se usa os lábios, mas sim o olhar? Bom, esse é o dele. Ele deve estar bem satisfeito com a vida, ou com as coisas que faz, mas não parece o tipo que fica esfregando na cara dos outros "ah sou demais". Ele não precisa, a satisfação é dele e para ele...e talvez daí venha o sorriso. Se for a sua vibe , ponto positivo.
Eu mencionei que ele geralmente está acompanhado de amigos certo? Estranhamente não consigo me ater as faces deles, somente Ele me atrai a atenção, por motivos inexplicáveis de minha mente. Minha mente: isso não vem ao caso agora.
Gosto do jeito que Ele se veste. É honesto, simples e sem frescura: "hetero" eu diria - e felizmente não é aquele clichê de roupas sociais. Tá, a parcela de culpa vem em parte do lugar que você trabalha, mas existem mais cores além do branco e preto. Ele deve trabalhar em um lugar feliz, e o chefe também ser gente boa...enfim uma cadeia de boas vibrações para ele chegar aqui sempre com o sorriso secreto bonitinho.
Agora eu tenho um nome para ele: "moço bonito". Tá bom, não é um nome, mas é um jeito de guardá-lo em minha mente. Moço porque não é velho e bonito porque eu gosto de vê-lo. É assim que as coisas funcionam.
É, eu gosto de vê-lo, me dá uma certa felicidade boba. Uma dessas coisas que não tem explicação lógica e racional. Deve ser um cara legal de se conversar aleatoriedades, e como eu presumo, gente boa. Mas o que eu falaria com ele? "bonita camisa, qual o seu nome?". Não, eu provavelmente teria um ataque cardíaco de tanta vergonha e ele obviamente me acharia uma freak. Tudo errado. Fora a chance de sobrevivência depois deste evento provocado por mim e acabar encontrando-o pelas ruas da região. Vergonha...
Os amigos escolheram uma mesa próxima a que estou, logo Ele estará aqui perto. Felicidades que estranhos me proporcionam sem saber. Uma pena, já que estou terminando de comer e meu tempo de ficar aqui também. Quem sabe amanhã o veja de novo.
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Hoje Ele está sozinho, com o olhar distante e estranhamente sem o sorriso secreto. Poxa, até você moço bonito? Queria poder trazer aquela sua carinha feliz de volta, e isso também me faria feliz. Mas não tenho intimidade, e assim só posso torcer silenciosamente que as coisas fiquem bem com você. Estes são os meus desejos.
Não sei se vou vê-lo novamente. Mudanças a caminho.
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Yep, este era o texto, que eu escrevi um outro texto sobre não publicar este . Gostaram? Sim, faz quase um ano que estava engavetado.
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